Davi Flores: na cidade
por Cahoni Chufalo
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O homem afeta e é afetado pelo meio em que vive. Não conseguimos escapar à realidade na qual estamos inseridos, exceto quando dormimos e nossos sentidos descansam. As duas performances aqui analisadas de Davi Flores relacionam-se com a realidade, com o ambiente no qual se inserem. Tentam, de alguma forma, diferentes posturas frente a ele. No caso dessas performances, o ambiente é o da Av. Paulista, símbolo da metrópole que é São Paulo.
“Insistentemente” é o título de umas das performances. E esse título já nos dá uma pista do que deveremos ver. Trata-se de um advérbio e que, portanto, deve relacionar-se a um verbo, ou seja, uma ação. Há basicamente duas ações sendo feitas insistentemente na performance: o fluir dos carros e passantes e o estagnar decidido do artista. Pois é assim que a performance começa: o artista dá alguns passo e para. Apesar de contrárias, essas ações não são refratárias. Aos poucos o artista, como que contaminado pelo movimento da rua, começa a movimentar-se levemente, primeiro os pés, seguidos das mãos, braços, ombros, pescoço. Esses movimentos vão progressivamente se intensificando até chegarem num nível quase convulsivo. O que parece ocorrer é que a postura assumida inicialmente pelo artista não resiste à força imprimida pelo ambiente. Quase como se o ambiente o forçasse ao movimento. No entanto, por ser a sua uma postura diversa da dos demais passantes, essa força não resulta no artista em movimentos similares aos deles, como andar ou conversar. Nele, ela expande-se por seus membros e cria movimentos aleatórios, estranhos. Esses movimentos só cessam quando o artista assume novamente uma postura habitual, dá alguns passos e a performance termina.
Se em “Insistentemente” há uma interação entre ambiente e artista, em “Despedida” o oposto parece ocorrer. Nessa performance o artista distende o tempo de uma ação que, geralmente, é feita brevemente (a despedida). Bastaria o tempo de um aperto de mão, um abraço, um beijo, para que a despedida se consumasse. Ao distender a sua despedida (um abraço no vazio que, lenta e gradativamente, vai se desfazendo), Davi Flores sobrepõe ao tempo real, o dos passantes na rua, um outro tempo, íntimo, particular: sua despedida tem a duração que ele acha que deva ter. Assim, nessa sobreposição de temporalidades, distinguimos com maior clareza um viés lírico que as performances de Davi Flores têm. É a sua motivação interna que o leva a apartar-se momentaneamente do tempo cotidiano. Aqui o artista consegue descolar-se do ambiente, resistir à sua ação até que a sua despedida termine. Aqui o lirismo se impõe sobre a cotidianidade.
Davi Flores parece interessar-se por essa relação artista/ambiente. É desse embate que suas performances retiram sua força. Basta pensarmos em como elas perderiam muito de seus significados se fossem feitas numa sala de museu ou galeria. O que também parece interessar ao artista é mostrar relacionamentos diferentes entre esses dois pólos. Se as performances têm um viés lírico, subjetivo, pessoal, não o tem de forma narcisista, do tipo “olhem o que sou capaz de fazer”. Ao contrário, o que Davi Flores faz é abrir-se ao espaço, propor um tipo diferente de interação com o ambiente, verificar se há outras possibilidades nos relacionarmos com ele. É ai que reside o maior interesse das performances de Davi Flores.
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* Cahoni Chufalo é graduado em Letras pela UMC (Universidade de Mogi das Cruzes) e pós-graduando em Crítica e Curadoria de Arte pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).
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“Insistentemente” é o título de umas das performances. E esse título já nos dá uma pista do que deveremos ver. Trata-se de um advérbio e que, portanto, deve relacionar-se a um verbo, ou seja, uma ação. Há basicamente duas ações sendo feitas insistentemente na performance: o fluir dos carros e passantes e o estagnar decidido do artista. Pois é assim que a performance começa: o artista dá alguns passo e para. Apesar de contrárias, essas ações não são refratárias. Aos poucos o artista, como que contaminado pelo movimento da rua, começa a movimentar-se levemente, primeiro os pés, seguidos das mãos, braços, ombros, pescoço. Esses movimentos vão progressivamente se intensificando até chegarem num nível quase convulsivo. O que parece ocorrer é que a postura assumida inicialmente pelo artista não resiste à força imprimida pelo ambiente. Quase como se o ambiente o forçasse ao movimento. No entanto, por ser a sua uma postura diversa da dos demais passantes, essa força não resulta no artista em movimentos similares aos deles, como andar ou conversar. Nele, ela expande-se por seus membros e cria movimentos aleatórios, estranhos. Esses movimentos só cessam quando o artista assume novamente uma postura habitual, dá alguns passos e a performance termina.
Se em “Insistentemente” há uma interação entre ambiente e artista, em “Despedida” o oposto parece ocorrer. Nessa performance o artista distende o tempo de uma ação que, geralmente, é feita brevemente (a despedida). Bastaria o tempo de um aperto de mão, um abraço, um beijo, para que a despedida se consumasse. Ao distender a sua despedida (um abraço no vazio que, lenta e gradativamente, vai se desfazendo), Davi Flores sobrepõe ao tempo real, o dos passantes na rua, um outro tempo, íntimo, particular: sua despedida tem a duração que ele acha que deva ter. Assim, nessa sobreposição de temporalidades, distinguimos com maior clareza um viés lírico que as performances de Davi Flores têm. É a sua motivação interna que o leva a apartar-se momentaneamente do tempo cotidiano. Aqui o artista consegue descolar-se do ambiente, resistir à sua ação até que a sua despedida termine. Aqui o lirismo se impõe sobre a cotidianidade.
Davi Flores parece interessar-se por essa relação artista/ambiente. É desse embate que suas performances retiram sua força. Basta pensarmos em como elas perderiam muito de seus significados se fossem feitas numa sala de museu ou galeria. O que também parece interessar ao artista é mostrar relacionamentos diferentes entre esses dois pólos. Se as performances têm um viés lírico, subjetivo, pessoal, não o tem de forma narcisista, do tipo “olhem o que sou capaz de fazer”. Ao contrário, o que Davi Flores faz é abrir-se ao espaço, propor um tipo diferente de interação com o ambiente, verificar se há outras possibilidades nos relacionarmos com ele. É ai que reside o maior interesse das performances de Davi Flores.
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Sem título, 2009 (da série “Look at my vagina”)
Fotografia
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Sem título, 2009 (da série “Look at my vagina”)
Fotografia
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Desligar o MSN Messenger (da série “Mudanças de vida como forma de arte”)
2009
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Por quanto tempo me for necessário, não usarei o MSN Messenger.
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Dormir à tarde (da série “Mudanças de vida como forma de arte”)
2009
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Durante a semana, por quanto tempo me for necessário, ao invés de fazer qualquer outra coisa, irei dormir à tarde.
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Pastel da Alameda Lorena (da série Mudanças de vida como forma de arte)
2009
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Aos domingos, por quanto tempo me for necessário, irei à feira livre da alameda Lorena comer um pastel de minha preferência.
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